 Durante os anos que convivi ao lado de João Luz, seja nos corredores da Pirajuí Rádio Clube, ou em nossa amizade após esse período, o seu jeito calmo e amistoso é a primeira coisa que me vem à mente. Quando soube de sua partida, na sexta-feira, dia 16, eu acessava a internet em casa, em São Paulo. Após o choque inicial e a forte torcida para que não passasse de um mal entendido – afinal, era o ambiente virtual –, recebi a confirmação do também colega José Wilson Martins. Naquele exato momento, me veio à mente o sentimento que tive quando conheci o João, há mais de dez anos, nos meus primeiros dias na emissora. A primeira coisa que pensei ao cumprimentá-lo: ele demonstrava uma calma muito grande para o tamanho de homem que era. De estatura alta e com a camiseta apertada nos músculos dos braços, ele tinha um jeito suave de ser, tratar as pessoas e o trabalho. Comunicador nato, era praticamente impossível não deixar-se contagiar por sua simpatia logo nas primeiras palavras. A mesma maneira tranquila estava no estúdio de locução, no anúncio das músicas e até na leitura de anunciantes - era marca registrada. Nem mesmo nas apresentações de eventos, em meio a tanta gente e sob a acústica geralmente sofrível, ele perdia o tom e o bom humor. Aliás, para mim, sua maneira de comunicar foi uma escola. Durante os eventos que eu apresentava, notá-lo nas arquibancadas do Gigantão lotado, sempre de braços dados com a sorridente esposa Irene, me transmitia uma segurança ainda maior. Era como se, repentinamente, eu estivesse “em casa”. Bondade Era um final de tarde, não saberia dizer qual o ano ao certo. Foi um período em que eu e João trabalhávamos em emissoras diferentes. Um ouvinte havia ligado para a Clube para denunciar um grande buraco numa rua da Vila Araújo, que estaria gerando transtornos à comunidade. Assim que cheguei ao local, lá estava João Luz, prostrado frente ao buraco (mais parecia uma cratera), com o telefone celular na orelha, no ar na programação da rádio concorrente. Não entendi muito bem a história, mas me parece que ele passava por lá e chegou a ter o carro danificado pelo mesmo buraco. A revolta dos populares somou-se à dele naquele boletim ao vivo, a falar da falha na via pública. Mas João era tão bonzinho, sempre tão atencioso que, até na reclamação, era possível notar o seu jeitão de bem com a vida, brincalhão e pacato. Nas palavras dele, o buraco mais parecia um pequeno furo no asfalto. Era sua maneira bondosa de encarar o mundo. Religioso, amigo, espirituoso, discreto, “tocador de violão”, talentoso e sempre disposto a ajudar o próximo. Esse é o João Luz que conheci e que até esses dias, ao me encontrar, onde quer que estivesse, mesmo que do outro lado da rua, fazia questão de abrir o seu sorrisão e emitir, na voz de locutor, um “Marrrrrrrrrcelo Daniel”! Na hora eu também retribuía o sorriso amigo e respondia: “João da Luz”! E num dia como hoje, em que sua voz calma não mais encanta os microfones, parece que esse apelido carinhoso que eu lhe atribuía faz todo sentido do mundo.
Publicado na Gazeta de Pirajuí em 24/3/2012

(Smack) - Oi mô... - E aí, tudo bem, linda? Como foi seu dia? - Ah! Normal, nada demais. A não ser no final do dia, que eu “meti a louca” numa paciente chata lá. - O que você disse? - Quando? - Agora mesmo... Que você “meteu a louca”... - Aahha, gostou? - Depende. Gostar de que? - Da minha gíria. Da minha rebeldia... - Você é psicóloga comportamental, querida, não vejo muita transgressão nisso. - Sou das ruas. - Que rua, Isabel? Só se for a rua da casa da sua mãe – que aliás você não sai de lá, nem parece que nós somos casados. - Nós ainda não somos casados, Rafa... - Mas é como se fôssemos... Eu me sinto como se estivesse... - Ah! Deixa pra lá. Mas essa história de meter o louco eu ouvi do camelô que fica na frente da clínica. - Bela companhia... - Me passa o suco. Eu não posso comprar um DVD pirata no camelô? Ou melhor, você está com ciúmes de um vendedor ambulante? - Não é ciúmes... É que você chega aqui em casa com esse palavreado todo. Isso não tá certo. - Ainda se fosse algum fazendeiro, médico, surfista, talento da bolsa,... - Não é ciúmes, Isabel! Você nem sabe o que essa gíria significa. - Claro que sei... Significa ficar loucaça, histérica, muito brava... - Pffff... Caramba, derrubei o suco... - Bem feito, seu mala! - Não tem nada a ver... Meter o louco significa falar uma coisa, por mais absurda que seja, com tanta convicção, que quem ouve passa a duvidar de suas próprias certezas. É o 171 perfeito, com muita propriedade. - Esse é o seu problema, Rafael. É tudo muito certinho, muito explicadinho. Cada coisa tem o seu significado... - Não é bem assim... - Seus despertadores no telefone celular estão todos programados até 2014; nas nossas viagens, você tem uma tabela do Excel com o tanto de cervejas e águas que vamos beber em todo o período; seu cabelo então, desde que te conheci, nunca vi um fio sequer fora do lugar... Seu mundo é minimamente calculado, não há aventura, não há desafio... Isso, às vezes, é um porre, sabia Rafael? - Você fala demais... - Vai falar que estou errada? - Tá errada sim! Cê acha que o cara que divide o barraco contigo sempre foi assim, certinho, mano? Cê acha que eu já caí aqui nessa fita com tudo suave, mamão-com-açúcar? O mundão já deu as caras pra mim, Joe. Já fiz várias correrias, pique mil graus mesmo. Passei necessidade, fome mesmo, maluco. Cê é toda pans para falar o que quer, mas não faz ideia dos BO que já enfrentei, das missão que tive para chegar aqui. Já puxei cadeia, mano. Conheci o crime, roubei, só não matei porque Deus me ajudou. Daí eu caí aqui no mundão de novo. Me endireitei e tô aqui, contigo na cozinha. - ... - Isabel? - R...Rafael, você... você está falando sério sobre isso? - Claro que não, amor, estou só metendo o louco. Publicado na Gazeta Regional em 3/12/2011
Parte 1 Os latidos dos cachorros ao longe se convertem em anúncio: o padre chegou. Uma vez por mês, ele deixava a cidade de Lins para ir até a fazenda celebrar a missa aos sitiantes. Aparecido tinha aprendido a falar há pouco, mas já entendia muito bem aquele momento. Ao lado da sua família humilde, vestindo sua “roupinha de missa, ficava todo ansioso. “Desde muito pequeno, sempre quis ser padre.” Não havia cowboy, super herói, bombeiro ou astronauta que tirasse a atenção do pequeno Cido sobre os vigários. Assim que chegavam à fazenda, ele beijava a mão, abraçava. “Fazia uma festa.” Aos 11 anos, mudaram-se para a cidade, na Vila Ribeiro, bairro linense onde até hoje vive sua mãe. Lá não foi diferente – não bastasse ir às missas, tornou-se coroinha, passou a entender cada etapa da cerimônia. Conforme a idade avançou um pouco, recebeu um convite para integrar um grupo de jovens na paróquia. A facilidade para fazer amizades e o empenho pela causa surtiu efeito rápido: em pouquíssimos encontros, já era o líder do movimento. Essas pequenas atitudes eram gotas que irrigavam a predestinação daquele rapaz. Definitivamente, seus caminhos rumavam a uma vida de devoção total ao catolicismo. Aos 14 anos, a voz que ainda tinha sinais da puberdade soou com palavras mais sérias, em um tom muito decidido: “Mãe, vou ao seminário, quero ser padre”. Por mais que a cena acima já fosse esperada, o outro lado do diálogo emitiu a resposta que não estava prevista. A matriarca não aceitou. Chorava ao imaginar o filho deixar a casa para o seminário, na época, segundo o próprio, uma situação de distanciamento bastante intenso. A jornada de Aparecido ganhava sua primeira ruptura. “Vou ser padre agora e deixar minha mãe nesse estado?” Jamais faria isso. Nesse momento, como diz o próprio, “não esqueceu, mas botou um pouco de lado a questão”. A partir daí foi um jovem como qualquer outro. Estudou, trabalhou como enfermeiro durante oito anos na Santa Casa de Lins e até ministrou aulas no Instituto Americano. Enfim, tentou rumar a jornada de uma pessoa na sua idade, cercado de amigos, o que rendeu até uma passagem curiosa: “quase fiquei noivo de uma moça que era irmã de quatro freiras”! No próprio Instituto cursou Odontologia. De consultório montado, exercia a profissão escolhida, mas, entre uma obturação e outra, um sentimento muito forte queimava em seu peito. “A vontade de ser padre era latente dentro de mim. Fui coroinha, coordenador de jovens, sempre ajudei minha comunidade... Mas eu ainda não estava satisfeito.” O menino pobre, nascido na roça, que foi enfermeiro, professor e, agora, dentista ainda estava longe de encerrar sua jornada. Aos 42 anos, era a hora de um novo começo.  Parte 2 Policiais isolam o local de um grave acidente na Rodovia SP 143, nas proximidades da cidade de Echaporã, região de Marília. A comunidade de Lins recebe aflita uma notícia inimaginável: dentro do carro estava Dom Walter Bini, há três anos nomeado como Bispo Diocesano. Naquele Corpus Christi de 1987 não houve procissão. Toda a região chorava em luto, diante do corpo do religioso no interior da grande Catedral. Na alma do então dentista Aparecido Cândido, a dor era ainda maior. Há poucos dias, após 42 anos a nutrir o desejo interno de ser padre, finalmente havia tomado coragem e falado com o bispo. Diante de sua morte, não sabia o que esperar: “meu Deus o que o Senhor quer de mim”? Dom Irineu Danelon foi o escolhido para a vaga de seu ex-professor – posição que ocupa até os dias de hoje. E coube a ele dar todo o apoio àquele profissional da odontologia, em busca de seu grande objetivo na vida. Em 1992, ele finalmente passaria a ser chamado de Padre Cido. E é como vigário que ele está, em uma missa das 18h de um domingo em outubro de 2011, na Igreja Matriz de São Sebastião. Com todos os bancos lotados, comenta na homilia sobre os dias que tirou para descansar em Santos. Fala sobre a capacidade das pessoas de se isolarem nos dias de hoje. “Imaginem vocês que eu fui no elevador, com uma senhora, do 11º ao 5º andar, sem que ela sequer me desse um ‘bom dia’”, nesse momento, faz silêncio e uma feição de braveza, no que volta a falar subitamente, com uma voz mais fina: “não acredito que as pessoas possam viver assim nessa frieza”. Algumas crianças dão risadas da reação no altar, no que são rapidamente repreendidas pela mãe. Poucos dias depois, a imponente igreja é trocada por uma varanda de uma casa de família, localizada no Parque Santa Guilhermina. Sob intenso calor das 19h30 de horário de verão, Padre Cido, com batina impecável, fala tranquilamente para trinta pessoas - vizinhos e amigos da família, sentados em cadeiras de cozinha, bancos e apoiados em muretas. Mais tarde confessou que estava um pouco triste naquele dia. Uma pessoa conhecida, grande incentivadora da igreja, havia perdido alguém da família em condições repentinas. Ao visitar o velório, teve de consolar os presentes, bastante inconformados. “Nesse momento é muito difícil levar qualquer palavra, pois não é fácil para os parentes compreender como essas coisas acontecem”, desabafa. Cido é um padre dos necessitados: dificilmente há um dia em que não visite, pelo menos, quatro pessoas doentes – sem citar os velórios, carentes, etc. “Hoje me considero um pirajuiense”, fala com orgulho. Há oito anos, quando foi chamado para assumir Pirajuí, chegou a negar o pedido. Numa segunda conversa, Dom Irineu Danelon falou especificamente das vantagens da mudança e citou, inclusive, momentos de sua biografia que provavam isso. “Ele foi muito mais que um bispo, foi um pai para mim. Foi muito bom mudar”. Em Promissão, onde estava há 11 anos, a notícia de sua saída causou alvoroço. Poucos dias antes da troca, caminhou pelo comércio local com o bispo, para mostrar-lhe o clima de insatisfação que pairava na cidade. Poucos passos foram suficientes para que uma senhora, sem titubear, chegasse até Dom Irineu e interrogasse: “É o Sr. que vai levar o Padre Cido para Pirajuí”? E o religioso, com a mudança já decidida – e bom humor-, respondeu: “Eu não. Quem vai levá-lo é o carro”. O carro o trouxe, Cido veio, ficou e entrou para a história do município. Publicado originalmente na Gazeta Regional em 11/2011
O episódio de estreia do Tufão na Gazeta revive o domingo em que a sorte bateu à porta dessa figura! “Ô fio, tá tudo certinho aí?” Logo chega o dono do estabelecimento, Pingo, todo sorridente, com uma toca na cabeça e avental preto amarrado. Em tempo, além de dono, ele é gerente, garçom, caixa, animador e, o principal, cozinheiro/chapeiro de sua lanchonete, localizada fora da cidade, no início da vicinal que dá acesso ao bairro da Água Quente. Junto com Pingo, vem da cozinha o cheiro da bisteca, único. Só quem já experimentou pode opinar... E quem o fez, em qualquer um de seus estabelecimentos nos quase 30 anos no ofício, jamais esqueceu. É com toda simpatia do mundo que ele chega mais perto e volta no tempo para contar um dia mágico, que aconteceu na tarde de um domingo em 1998. Eram tempos difíceis, ocasião em que os negócios andavam apertados, mas que não dispensavam um pequeno lazer. “A gente tinha lá uns 100 contos no bolso, que eram para pagar um fornecedor na época, mas eu pensei: vamos dar uma pescada com a família e depois entra mais dinheiro e pagamos no decorrer da semana”. Mas antes, era hora de conferir o resultado da loteria, uma prática quase religiosa de Pingo, que sempre sempre sempre jogou – e joga até hoje. O resultado veio de uma vizinha, escrito em papel. Com vários jogos nas mãos, era hora de bater os números sorteados com os feitos. São escolhidos 20 números, de um total de 50 – no caso de Pingo, os mesmos 20 eram repetidos há tempos. Um susto: nenhum dos números jogados estava ali. Quem não marca também ganha uma bolada. Outro susto: o resultado da vizinha viera incompleto, faltavam dois números para serem revelados. Foram até lá... Era o tudo ou nada. Sua esposa, diante do veredicto, anunciava aos poucos: “O primeiro não saiu, Pingo”. “Ai meu Deus do céu, muié”. “O segundo também não”! Agora era oficial, alguma coisa havia sido ganha naquele momento. Era domingo, Casa Lotérica fechada, correram para a residência dos proprietários, invadiram um churrasco de família com a informação de uma possível conquista. O assunto era sério e o dono largou a churrasqueira e foi para a frente do computador com o ansioso casal. Os tempos eram outros e a internet andava feito tartaruga com reumatismo. Pingo estava nervoso, não parava de perguntar sobre o prêmio ao rapaz. “Vai dar para comprar uma televisão?”; “Vai, Pingo”; “Vai dar para comprar uma bicicleta para as crianças?”; “Vai, Pingo”; “Vai dar para comprar...”; “Faz o seguinte, Pingo, olhe você na tela o valor do prêmio”. Suas finas pernas começaram a tremer. “Amor, tamo ricos! Ganhamos R$ 27.500”!!! Foi quando a esposa olhou bem para a tela e disse: “Pingo! Leia direito, nós ganhamos R$ 275 mil”!!! Ele quase caiu no chão. A partir daí foi só alegria, correu para casa, encontrou uns pares de caixas de rojão, que pipocaram nos céus de Pirajuí. Não era política, não era time de futebol ou festa de igreja. Aquele estouro deu nome àquele dia: foi o “Domingo do Pingo”!  Publicado originalmente na Gazeta Regional, em Pirajuí em 30/10/2011
 O outono de 1939 é muito frio, principalmente em meio aos pés de cafés. O nascer do sol atravessa o orvalho gelado e se choca com o verde intenso dos cafezais na época da colheita. Ali estavam pai e cinco filhos em mais um longo dia nas propriedades de João Meirelles de Souza Neto, onde atualmente encontra-se a região do bairro Sta Guilhermina. Após a caminhada de dois quilômetros da colônia até a plantação, irmãos e irmãs conversavam animados. No entanto, um pouco afastado, o filho homem mais velho da casa, Antonio, aos seus 19 anos, não falava. De rosto fino, cabelos pretos bem curtos, com queixo forte e nariz marcante sobre um impecável bigode, ele também não está bravo ou triste - apenas observa, distante, o que ali se passava, o café verdinho e o céu azul, gelado, que se formava ao longe. Antonio Marques de Oliveira escolheu partir no frio do outono, após 88 anos de uma trajetória de vida cercada de muito trabalho, incontáveis amizades e carregado de amor familiar. Seu carisma é uma jóia cultivada pelos seis filhos, frutos de seu casamento com a namorada da juventude, Amélia, um enlace que beira os 65 anos de duração. Sua paixão pelos nove netos representava quase uma devoção – sentimento que brindou seu único bisneto. A mesma energia foi distribuída a genros, noras e demais familiares. Apesar de ter sua vida profissional ligada ao café – seja na lavoura ou nas três décadas em que trabalhou na Cooperativa dos Cafeicultores -, sempre foi envolto a atividades criativas, como a marcenaria, pintura e jardinagem. Com pinhas secas, montava bicudas aves artesanais e era até preciso esconder dele móveis antigos, ou logo recebiam uma mão da tinta que estivesse por ali. Sem falar do futebol, que jogou, foi técnico e um eterno corinthiano fanático. Teve o violão como grande companheiro, instrumento que não tocava com excelência, mas que era o eixo para seu maior dom: as letras. Compôs músicas infantis, toadas de duplo sentido, jingles políticos e até canções religiosas, como o “Hino a São Sebastião”, de quem era devoto e cuja melodia foi das últimas palavras que falou em vida. Sua inclinação para a poesia teve resultados nos descendentes: educadores, músicos, comunicadores e este jornalista que vos escreve. Marido, pai, sogro, vô, bisavô, colega de trabalho, músico, poeta. Em cada área que atuou, Antonio imprimiu sua marca honesta, bondosa e bem humorada. Mais que isso, deixou uma fôrma pronta para que as pessoas possam seguir e tentar ser, ao menos, uma pequena porcentagem do homem que ele foi. Passaram mais de 70 anos e fazia muito frio na Rua Pref. Eloy Almeida Cardia, baixada do Jd América. Ironicamente, após viver 30 anos na mesma casa, fazia poucos meses que o asfalto havia chegado por lá. E era na beira dele que estava sentado o grisalho Antonio Marques, numa velha cadeira, todo agasalhado. A sua frente, mecânicos consertam carros e garotos jogam futebol. Mas em seus olhos claros, o que se via era algo mais: a mesma expressão observadora, o olhar calmo do menino que mirava o cafezal no Meirelles. Publicado originalmente no semanário O Alfinete em 18/06/2011
 No final da década de 80, o piloto de Fórmula Um Alain Prost tinha um apelido nos bastidores do esporte: “The Professor”. Ao francês, a alcunha de professor era aplicada pelo fato de ser extremamente técnico e racional em sua maneira de correr. Esse era o estilo do jornalista Piter Pereira, que nos deixou no meio da semana, mas que perpetuou sua marca na comunicação em Pirajuí, seja nas ondas do rádio ou nas palavras impressas. Não vou falar apenas do Pereira que muitos conhecem, cuja imagem era ligada ao rock e ao seu eterno bordão “Live long time to rock´n roll”; mas do Piter das redações, a datilografar e digitar com o corpo curvado e os olhos, de óculos, na mira do produto final. Durante a produção, não se ouviam risadas ou comentários paralelos. Em frente às matérias, era sisudo e brigava com cada palavra. O resultado final: uma obra limpa, sem muitos adjetivos, direta, do jeito que a informação deve ser. Seu ritmo de devoção era interrompido por perguntas – dele próprio – sobre os dados colhidos para a reportagem. Prezava muito pela coerência e exatidão nas datas, lugares e nomes. Seu grande talento, na minha opinião: os textos curtos, como notas e legendas, fundamentais para a edição e o fechamento de um jornal. Fazia isso com maestria. A palavra exata simplesmente brotava de sua mente, com naturalidade, sem sequer franzir a testa. No Semanário O Alfinete, assinou durante anos a Coluna do Piter Pereira, um espaço de poucos parágrafos, com total liberdade editorial para sua mente, que sempre trazia ao centro uma frase de efeito de sua autoria. A cada sábado, teve oportunidade de narrar, além de análises do cotidiano, trechos do passado do município que talvez se configurem num dos maiores registros históricos da cultura popular pirajuiense – os grandes craques no futebol, os políticos folclóricos e os tempos áureos da Rua Treze, entre tantos temas. ***  Devia ter uns 14 anos quando resolvi levar umas charges políticas para a publicação no extinto Jornal de Pirajuí. Fui recebido (muito bem, aliás) por Piter Pereira, que me orientou e provavelmente selecionou os poucos desenhos que fiz – demorou pouco para eu perceber que aquela não era minha praia. Após esse primeiro contato, em meados da década de 90, fomos trabalhar juntos novamente a partir do ano 2000, em encontros praticamente diários, regados a textos, crônicas, entrevistas e o café mais gostoso que tomei na vida – feito pela equipe d´O Alfinete. Dentre tantas coisas nas quais combinávamos, a principal era a música. Ele era um amante do rock dos anos 70, dos shows épicos do período e dos deuses da guitarra. Certa vez me buscou na rua para que assistisse, em sua casa, a um solo do lendário Paul Kossoff, no Festival da Ilha de Wight (1969). Era maravilhoso vê-lo imitar a guitarra do ídolo com as mãos. Tinha como uma de suas preferidas a banda americana Lynyrd Skynyrd, que tem uma pegada country inconfundível. Sua música preferida? “That Smell”, composição emblemática da década de 70, que tem o seguinte trecho: “Diga que você estará bem amanhã / mas amanhã pode não estar aqui para você”. A canção não condiz com a realidade. As letras e a voz de Piter Pereira estarão conosco hoje, amanhã e sempre. Adeus, Professor!
Publicado originalmente em O Alfinete, dia 09/04/2011 foto by Newton Oliveira
Concurso Literário dos 120 anos da Imprensa Oficial consagrou ontem os seus vencedores: Marcelo de Oliveira Daniel, do Clipping (1º lugar); Claudio Caminski, da Auditoria Interna (2º lugar); Otávio Nunes, do Núcleo de Redação (3º lugar); além da menção honrosa para Edson Lima, da Segurança, e Nei Leite, da Edição da Agência de Notícias.
 Rubens Ewald Filho e Francisco de Assis
Durante os últimos dias, os três jurados convidados, Rubens Ewald Filho – crítico de cinema e coordenador da Coleção Aplauso; Chico de Assis – dramaturgo; e Ignácio de Loyola Brandão – escritor; leram todos os 25 textos inscritos. Ontem, se reuniram aqui na Imprensa Oficial para escolher os melhores. Apenas Loyola não esteve por conta de um compromisso profissional, mas se comunicou com os demais jurados por e-mail. "Foi consenso e não tivemos problemas para escolher os textos, apesar de todos estarem bons", disse Rubens Ewald.
 Marcelo de Oliveira Daniel, do Clipping (1º lugar) "Integro a equipe da Imprensa Oficial há aproximadamente oito meses e, desde então, diariamente convivo com os funcionários e ouço histórias do passado da empresa, sempre com certo saudosismo. Minha inspiração veio, principalmente, dos editores e diagramadores do Setor do Clipping – já que aqui tem gente com 10, 20 e até 30 anos de Casa. Deixo claro que o personagem rabugento não tem nada a ver com eles, pelo contrário, as madrugadas são sempre animadas. Mas gosto muito de ouvi-los falar do passado, das épocas, colegas, festas e produtos - e sempre noto um tom apaixonado nas lembranças. Foi isso que tentei narrar no texto. O concurso foi uma iniciativa fantástica. Nesse momento, a IO já respira a comemoração dos 120 anos. Esse tipo de realização só enriquece esse momento de festa e união."
Um dia na vida de um “antigão” da Imprensa Jurava que não haveria dificuldades em escrever sobre o dia-a-dia do funcionário mais antigo da história da Imprensa Oficial. Afinal, em minha cabeça, era apenas um senhor na mesma função pública, repetida por exatos 120 anos. Linão Cardoso faz parte da folha de pagamento da empresa desde a sua fundação – “sem nunca ter atrasado um dia no ordenado”, já resmunga o ranzinza entrevistado. Deu um pulo do trólebus e já estava em frente ao vistoso prédio da Imprensa, uma construção que mistura clássico e moderno e que domina todo o trecho do bairro – seja pela suas proporções, ou pelo movimento que seus funcionários geram na localidade. “Anda lesma! Além de invadir minha privacidade, ainda vai me atrasar? Eu não quero desconto hein? Vou reclamar no RH”... Do bolso da calça jeans, levantou um cartão de plástico, com uma foto sua bem recente, carrancuda, é claro. Elevou-o até um moderno relógio de ponto que, automaticamente, gera um pedacinho de papel, cheio de coisas escritas. “O papel já sai na minha mão, impresso”, disse com certo ar de deboche, “você não faz ideia da trabalheira que eu tinha para imprimir algo assim. Várias etapas, cheias de máquinas e trabalhadores envolvidos”. Na maior parte de sua vida funcional, Linão retirava uma folha de papelão de uns escaninhos com seu nome e picava (furava) o ponto na data e horário. Tentei argumentar que, hoje, essa tecnologia também envolve horas de trabalho e desenvolvimento. “Já falaram que você é bem chato”? Era melhor não interagir tanto com o entrevistado, não é mesmo? * Os tempos definitivamente eram outros quando nosso personagem deu as caras pela primeira vez na empresa, há mais de um século. Para começo de conversa, muita gente literalmente “chegava” e trabalhava. “Às vezes a pessoa ouvia falar do lugar onde era feito o jornal, pegava um ônibus e ia bater à porta, preenchia um formulário e, pronto, era mais um para a equipe”. “Hoje em dia todo mundo quer entrar aqui – sem falar que a coisa anda braba lá fora”, completa Linão, “é um baita concurso que tem que ser feito, difícil e cheio de concorrentes. Não é para o seu bico” – ele perde a pata, mas não o coice. Seus olhos cansados viram a firma deixar a rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade, para ocupar o parque gráfico na Mooca. Antes, dividia as ruas do bairro com milhares de trabalhadores de tantas outras indústrias. Hoje são poucas, “verdadeiras sobreviventes”, como dramatizou o próprio Linão. “Isso eu falo das outras. Nós aqui estamos muito bem das pernas, pode escrever isso aí”. * Para os colegas de Imprensa Oficial, falar dele é sempre festa - zombam que possui um patrimônio IMESP colado na nuca. “O Lino só não está na foto da Santa Ceia porque teve de sair correndo para fechar o D.O. do outro dia”, brinca um camarada da Rotativa. Chacotas de lado, esses funcionários me abriram os olhos para algo que não havia percebido ainda: Cardoso havia se metamorfoseado para ali permanecer. Dos manuscritos às rotativas; o linotipo, o offset e a impressão digital. Viu o fim do “chumbão”, ocasião que perguntei se serviam leite para evitar contaminação – “leite eu não sei, mas tinha uns dois ou três que bebiam é muita cachaça”. Não se assustou com a informática, manjava de Word, Excel, Photoshop e In Design. Aprendeu tudo nos cursos da casa – mas até hoje não cansa de dizer que “odeia a parte de se apresentar no começo das aulas”. Foi da equipe do DOE, dos Projetos Editoriais, Setor de Impressão, Acabamento, Almoxarifado, do Clipping e até da Manutenção Elétrica. * “Pronto! Já está sabendo tudo da minha vida agora né? Posso trabalhar? Depois me pegam na boa aqui e eu estou na rua...” Não. Após 120 anos, dificilmente estará na rua, já que passou a viver a Imprensa Oficial. Já não eram mais funcionário e empresa, mas um só. O mau humor? Só aquela proteção do que é seu, como uma cadela que ama seus filhotinhos. E ele ama isso aqui, pode acreditar. Pronto, Linão, já acabei. Pode trabalhar tranquilo.
 Na tarde do último sábado (10/10), o planeta Terra comemorava com surpresa a entrega do Nobel da Paz ao presidente norte-americano Barack Obama. Exatamente no mesmo período, mas na Praça João Augusto Ribeiro, o “Jardim dos Turcos” em Pirajuí, a dupla caipira Chapéu Preto & Renan estava preocupada é com o teor de seu repertório. A sombra das árvores protege do sol escaldante, mas não evita o calor subsaariano que elevava as vendas de picolé na região. Sobre o antigo coreto lá estavam os dois artistas, muito bem microfonados, a cantar clássicos de Liu & Leo, Teodoro & Sampaio e dos ídolos Tião Carreiro & Pardinho. A cada verso e refrão, os dois cantores parecem se conhecer melhor e buscar um entrosamento mais intenso. Não é à toa, a dupla existe há enxutos seis meses. Pouca gente sabe, mas Chapéu Preto é a alcunha artística de Benedito Ramos, de 64 anos – que há oito faz música no teclado, acordeom, violão e, no exato momento, na viola. Mais impressionante ainda é Renan, que de Renan não possui nada. Trata-se de Luiz Carlos Ribeiro, 55 anos, o popular “Luizão Saqueiro”. Com um senso de humor apuradíssimo, é muito conhecido por sua simpatia, a lendária imitação do personagem Pato Donald e, é claro, o seu peculiar e único assovio – uma mistura de sopro e som. Luizão nunca cantou na vida. Nunca esteve em um palco ou desenvolveu alguma atividade artística. Há seis meses ele usa de talento e boa vontade para ser nada menos que a primeira voz da dupla, um baita desafio para qualquer um, diga-se de passagem. O grande combustível para a formação foi a oportunidade fornecida pelo músico e animador João Victor, que desempenha na Praça um papel de divulgação da música local como tanto fez o saudoso Zé Bagunça. Enquanto essa entrevista é realizada, o som alto de uma banda de rock ecoa nos ouvidos dos sertanejos. “Adoro todo estilo de música”, afirma Chapéu Preto; “Não critico ninguém: desde que esteja cantando certo, ouço de tudo”, arremata Renan. Enquanto ainda estavam no palco, no momento de anunciar a saideira – que seria “Franguinho na Panela”, de Lourenço e Lourival – Renan aponta para um dos bancos do Jardim e a oferece para “fulano, beltrano e ciclano”. Chapéu Preto & Renan foram construídos para levar alegria e arte para os outros. Eles são a prova viva de que, enquanto houver alguém para se apontar o dedo e oferecer uma música, significa que ainda é tempo de botar a viola para tocar!
publicado originalmente em O Alfinete em 16/09/2009

Já passava da 1h40 quando finalmente sentaram-se para a terceira partida do jogo final, a chamada “nêga” (melhor de três etapas). Não havia nervosismo – e isso não era uma virtude, mas simplesmente um pré-requisito -, não existe jogador de truco nervoso, aliás, bom jogador. Após seis horas de competição, pressão, mandingas e blefes, as duas duplas com melhor desempenho na noite estavam frente a frente. Os irmãos Reinaldo e Ricardo exibiam controle de jogo, talvez amparados na longevidade da parceria, provavelmente de mais de uma década. De estilo ponderado, faziam uso maior da concentração e deixavam os berros e provocações para momentos mais concretos, quando o ponto já havia sido conquistado. Dividiam a mesa com a dupla César e Giovani, sob o desafio de jogarem juntos pela primeira vez. César, aliás, Cesinha era o mais introspectivo, sério, quase triste, tamanha a frieza que uma partida final pedia. Já Giovani encarna um dos mais eficientes estilos no jogo de truco: o do entertainer. Endiabrado, não para um segundo sequer durante a rodada. Conversa ininterruptamente, olha para os lados, se posiciona na cadeira, arruma o boné, fala e alterna o foco entre a dupla e o público. Sempre arranca risos. Em um determinado momento da final ele chama o truco, primeiro em voz baixa, depois aos berros. A ameaça é tão convincente que a dupla rival demora um pouco mais para reagir, sob silêncio. Giovani é ainda mais rápido: “ué, parceiro, cadê os outros dois daqui, foram embora”? O Torneio Interno de Truco é uma das iniciativas de maior sucesso do Parque Clube Pirajuí. Atrai bom número de jogadores e movimenta noites durante as etapas, que acontecem mensalmente. Ao término, a organização providencia o Torneio dos Campeões, que é o grande objetivo dos competidores. Quando jogado para diversão, o truco é pura descontração e o que vale são as regras convencionais. Em campeonatos, os pontos são regados a adrenalina e, a partir daí, as normas passam a existir de uma maneira mais criativa. Cada jogador tem seu jeito de interpretá-las, o que ironicamente faz essa natureza de jogo mais profissional. As partidas mais decisivas costumam ser ainda mais truncadas, meticulosas, com as duplas a ponto de explodir. Nessas horas tudo vira motivo para confusão, o que exige a presença firme de um árbitro. Se por um lado o estilo de jogo de Giovani e Cesinha havia rendido sequências de boas jogadas, por outro, a ousadia havia também batido de frente com a técnica de Ricardo e Reinaldo. Depois de um 12 a 8 para a dupla estreante, a segunda partida havia terminado em 12 a 10 para os irmãos. Às 2h da manhã conclui-se a última jogada da noite (ou seria dia?): após aplicar um jogo gradativamente mais calmo, Cesinha e Giovani superam a outra dupla, em um emocionante 12 a 8. Não há dinheiro em jogo, a paixão dos competidores é alimentada pelos troféus, que são entregues diante o suor de seis horas de competição, em plena terça-feira. É difícil explicar a intensidade desse tipo de jogo. Na metade do torneio, após uma excelente pontuação, o competidor Paulo Coelho fez uso de uma inspirada colocação (talvez digna do consagrado escritor homônimo): “Parceiro é parceiro até a morte... Aliás, até a morte não, porque nela tudo acaba”. E é bem assim que a coisa funciona, mas não é necessário ir tão longe. Os insultos, as encaradas, os gritos... Tudo acaba logo ali, depois dos tão sonhados doze tentos.
publicado originalmente em O Alfinete, em 18/11/2009
Com a morte de Labriola, Pirajuí perde um intenso religioso, um bisavô dedicado e uma verdadeira enciclopédia ambulante. Por Marcelo Daniel Em meados da década de 90, dois adolescentes perambulavam pela praça Dr. Pedro da Rocha Braga em busca de entrevistados, preferencialmente de idade avançada, para uma pesquisa que seria publicada num jornal local. Na ocasião encontraram um senhor grisalho, de óculos marcantes, mas com visual de aspecto jovem: camiseta pólo, bermuda, tênis esporte e meias até a canela. Antes que os garotos fizessem a pergunta ligada à pesquisa original, uma frase numa das camisetas fez com que o entrevistado tomasse a ação da fala: “aqui está escrito ‘skate’, esse é um verbo em inglês, ‘to skate’, que significa patinar”. Ali começava uma incursão na curiosamente desse senhor, que convidou os jovens a caminhar uns 100 metros até a sua casa, ali pertinho – local onde foram ministradas, durante aproximadamente três horas, aulas de Geografia, Teologia e conhecimento de vida. O entrevistado era João Batista Labriola, nascido em Itatiba, em junho de 1914 e que, durante seus 95 anos de vida literalmente rodou o mundo, até que o destino o colocou na cidade de Pirajuí, município onde se aposentou como gerente do extinto Banco Comercial (prédio onde hoje se encontra o Escritório Contábil Coltri) e que viria a falecer, por causas naturais, no último dia 29 de março – coincidentemente, no aniversário da sua amada Pirajuí. Figura carismática, era frequentemente avistado na região central da cidade, pelas ruas, na Praça já citada acima ou na varanda de casa. Outros locais frequentados eram as igrejas de toda região, durante as celebrações das missas. Labriola fez da fé um instrumento de vida – integrava a Terceira Ordem Franciscana, destinada a leigos, ou como descrito pelo site Franciscanos: "tratava-se de pessoas que procuravam viver a sua fé nas suas famílias, nas suas profissões e através de seus afazeres dentro da sociedade". Labriola seguiu a risca a missão de evangelizar. Durante anos publicou no jornal Gazeta de Pirajuí a coluna "A Palavra de Deus", proveniente de uma folha A4, datilografada frente e verso com os ensinamentos bíblicos. Os capítulos e versículos surgiam por entre as palavras, encaixados pelo total domínio do autor por cada trecho do Livro Sagrado. A máquina de escrever foi uma eterna companheira, já que o computador, mesmo presente em casa, não era utilizado. Há cerca de duas décadas, perdera a parceira de jornada, a esposa Aldenora. De personalidade marcante, foi professora primária no Olavo Bilac e figura presente na formação de toda uma geração. Aos 86 anos, João Batista realizou um grande sonho e percorreu a Europa, numa viagem que rendeu-lhe um caminhão de histórias e registros fotográficos da Itália, Paris, Londres, os quais eram constantemente exibidos a familiares, amigos e curiosos. Os Estados Unidos da América e o Egito também constam do rol de destinos já visitados pelo viajante. A idade nunca foi um empecilho, pelo contrário - os próprios estudos de formação técnica em contabilidade só puderam acontecer quando ele já estava na casa dos 30 anos. Exemplo mais notório da disposição eram suas aparições vespertinas na academia de ginástica do Parque Clube de Pirajuí, no alto de seus 90 e tantos anos. Filho do meio de três irmãos, Labriola teve seis filhos, que residem em Pirajuí, Bauru, Lins e Maringá, no Paraná. Deles resultaram 12 netos e quatro bisnetos. Aos mais novos, a figura do avô (e bisavô) remete a conversas longas, explicativas em tom professoral, nos idiomas inglês, latim e um pouco de italiano. Histórias fantásticas de uma vida intensa, como a da vez em que, trabalhando como garçom em um hotel, serviu ninguém menos que Getúlio Vargas. Ou, ainda sob o mesmo tema, quando aos 18 anos se viu defronte à Revolução Constitucionalista de 1932. Naquela tarde ensolarada, os dois garotos saíram boquiabertos diante do mundo totalmente novo ao qual foram introduzidos. Conheciam ali o universo de João Batista Labriola, que deixou a marca de discípulo dos ensinamentos de Deus, de enciclopédia pronta para abordar os mais diversos assuntos e, principalmente, de um homem bom.
|  | Na esq. da Vol. Silvano de Lima com a Riachuelo o bicho pegou no sábado de carnaval... nem o Seu Pedro do amendoim escapou... |

Se em algum lugar do vasto cancioneiro do samba nacional existisse alguma coisa do tipo “feiúra se põe a mesa”, certamente teria sido proferida por Dona Nhenhê. Mas, como essa série biográfica não tem tanta grana assim para investigar tal citação, comecemos de uma maneira mais sussa. Obviamente Nhenhê não nasceu Nhenhê. Há uma grave controvérsia sobre a origem de seu nome de batismo, uma corrente de estudiosos aposta em Irenhê, enquanto que outra vertente sugere que seria Nherice. No entanto, o proprietário da barraca de cachorro quente do bairro onde a estrela nasceu jura que ela se chamava Ana Júlia, enfim. A partir da década de 70, Nhenhê passou a ser conhecida como Nhenhê Atol, uma espécie de abreviação para o apelido Nhenhê do Atoleiro – alcunha que ela ganhou após ter bebido muito certa noite e, acidentalmente, ter ficado presa em numa poça de lama por 11 dias. Nhenhê Atol nunca chegou a conhecer o sucesso. As rádios não tocavam sua música, empresários não vendiam seus shows e músicos detestavam acompanhá-la nas rodas de samba. Há uma lenda que o forte cheiro de Nhenhê funcionava como repelente nessas ocasiões, onde havia muito calor e suor. “Ela mascava muito alho, sabe. Sempre mascou. E isso subia pelos poros na hora da quentura... Xi, era um Deus nos acuda”, lamenta Lelo do Cavaco, que nunca na vida relou a mão num cavaquinho, já que tocava triângulo. Dentre suas composições, letras marcadas pelos preconceitos vividos por ser mulher, negra, magra, um pouco ruiva e também levemente gordinha. Em Pedaço de barrigada, ela expressa claramente tais preceitos: “Ei que te vi aqui, meu amor, no meio da barrigada. Ai, Ada! Ai, Ada! No meio da barrigada”. Em tempo, também não entendemos nada dessa letra, ok? Na época dos Grandes Festivais, realizados na época pelas emissoras de tevê, Nhenhê deixou de usar o nome artístico “Atol”. Não. Ela nunca participou ou sequer se inscreveu nessas competições musicais. Apenas resolveu nunca mais usar tal nome. Coisa desse povo do samba, sabe como é. Dizem que ela nos deixou em 1989, numa tarde de setembro. Há registros que Dona Nhenhê morreu mesmo em 1992, em meados de julho. Outros afirmam que ela está viva e é dona de uma empresa de Telemensagens na região do Cambuci, em São Paulo. O fato é que só quem conheceu Dona Nhenhê e ouviu sua voz rouca perdurar pelo espaço, sabe do que estamos falando. Ou seja, para falar a verdade, quase ninguém.
 Não há como escapar: nos dias de hoje, se você tem 17 anos, ou se dedica ao rock´n roll ou às sandálias Crocs. E é na primeira opção que se enquadram cinco pirajuienses da banda Distrito 17 que, com pouco mais de um ano de formação, tem na próxima semana sua maior conquista: ser a banda de abertura do grupo The Salad Maker, em Bauru. Formado por dois brasileiros, o TSM é um grupo de rock independente sediado em Londres – rumaram para o mercado internacional em busca de mais atenção e um público mais amplo para o seu som, em inglês. Na recente turnê brasileira, eles farão 14 shows em 14 cidades diferentes. No dia 17/1, será em Bauru, no Pub Area-51. Rock Distrital A quadrilha é organizada e composta por Vinicius Aio (vocais), Rodolfo Martins (guitarra), Victor Ito (violão), Junior Martins (baixo) e Silvio Henrique (bateria). Recebe o nome Distrito 17 como criativa referência ao endereço de ensaios da banda, na Rua Distrito Federal, nº 17. Tais encontros contam predominantemente com sucessos do rock nacional, nomes como: Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii, influências do grupo. As composições próprias podem ser ouvidas no MySpace (ler abaixo) e o destaque é a música Voando Alto, que está na programação da Rádio FM 105,9 – aliás, pedidos dos ouvintes são sempre bem-vindos. Para a apresentação do próximo domingo, a banda terá uma baixa no elenco original e a bateria será provisoriamente de Vitor Fachini. Entusiasmado, o baixista Junior Martins afirmou à redação d´O Alfinete estar “bastante ansioso com a boa oportunidade para a banda conquistar cada vez mais seu espaço”. Os fãs da city já se organizam para acompanhar a apresentação e os convites já estão à venda. Dá-lhe Distrito!

Serviço Show da banda The Salad Maker, com abertura da Distrito 17. 17/1 Pub Área 51, às 17h, Bauru Mais informações sobre o show www.myspace.com/thesaladmaker - MySpace The Salad Maker www.myspace.com/bandadistrito17 - MySpace Distrito 17 @Distrito17 – Twitter da banda Distrito 17 – Orkut – Contato: (14) 3572-3040 Reportagem originalmente publicada no Semanário O Alfinete em 9/1/2010. fotos: @eloisantaroza.
|  | Sim, o São casou. |
Michael Jackson Rei do Pop Fale o que quiser, não há na história quem tenha vendido mais ou feito tanto sucesso quanto o cantor com o álbum Thriller (1982). Trata-se de um disco produzido por Quincy Jones que afirmou definitivamente Michael Jackson como astro solo. Não apenas isso, o consolidou como o maior ídolo da música mundial – aos 24 anos de idade. A produção musical fala por si. Vide as faixas quatro, cinco e seis, respectivamente: Thriller, Beat It e Billie Jean, três das maiores músicas já compostas. Não bastasse a revolução sonora, Thriller ainda daria muito o que falar. Como muito bem resume a Wikipédia: “Jackson transformou o vídeo musical em uma forma de arte e ferramenta promocional, através do uso de roteiros complexos, sequências de dança, efeitos especiais e aparições de personalidades”. Ou seja, praticamente inventou o videoclipe. Acredite, não se sabe estimar qual o tiragem de vendas de Thriller. Até a morte do ídolo, utilizava-se a absurda medida de “entre 50 e 100 milhões” de cópias vendidas. Certamente a partir da última sexta-feira, essa quantia será imensamente maior. Michael Jackson social O garoto negro que rompeu barreiras. A frase define muito bem a trajetória de MJ – pelo menos no início de sua carreira. Primeiramente, a barreira musical, já que suas composições tinham o soul, a disco music e o rock, juntos. Até então, ritmos que não se misturavam. O fato de ser negro e transitar em um mercado até então dominado por brancos também o fez um pioneiro. No entanto, o grande passo de Jackson nas questões sociais se deu ao liderar um grupo de músicos para arrecadar dinheiro para a África. We are the world foi a música tema da campanha USA for Africa que arrecadava fundos para aquele continente, numa época em que, pela primeira vez, a fome era transmitida pela tevê. A campanha rendeu pouco mais de R$ 55 milhões para o continente – o que pouco contribuiu para o fim da crise, em termos financeiros. Porém, We are... revolucionou a carreira dos artistas que fizeram parte do clipe, mostrou a África de uma forma muito real para o mundo e, principalmente, criou a junção entre a música e a consciência social – Bono Vox que o diga. Michael Jackson bizarro O fato de ter praticamente nascido em uma carreira artística fez de Michael Jackson um ídolo controverso e de gostos duvidosos com o decorrer do seu sucesso. Dentre as inúmeras polêmicas, extravagâncias consumistas, com a criação de reinos encantados como moradia, além de cirurgias plásticas que teriam resultado no clareamento de sua pele. Some a isso acusações de abuso sexual de menores, um duvidoso casamento com a herdeira de Elvis Presley e constantes aparições cada vez mais estranhas na tevê. Três faces que imprimem a Michael Jackson a certeza de que foi um personagem único em sua passagem pela Terra.
O que fazer se a vida resolve presentear justamente com a morte, só que em uma maneira inusitada - não pela doença, tragédia ou mesmo a existência de um arquiinimigo? Esse foi o mimo que o destino forneceu a William Blake, um jovem trabalhador de Cleveland (EUA) que, após a morte dos pais, resolve atravessar o país de trem em busca de um emprego. Infelizmente, a vaga prometida na fábrica já estava ocupada. E, ao perambular sem destino pelo perigoso vilarejo industrial, Blake envolve-se, por acidente, em um crime passional. Dentre os mortos estava o amado filho do dono da indústria e da cidade. Em suma, o caminho que previa uma vida nova para o rapaz converte-se, em fração de segundos, na anunciação de sua própria morte. Ele se vê gravemente ferido, com um tiro no peito durante a confusão e com os mais sangrentos pistoleiros atrás da altíssima recompensa, anunciada pelo magnata em busca de vingança. A impressionante narrativa acima vem do filme Dead Man (1995) e é considerado um clássico, um dos precursores do cinema contemporâneo. William Blake é vivido por Johnny Depp, que sintetiza um emaranhado de emoções no personagem. De raparigo cheio de esperanças, ele se transforma, no decorrer da obra, em um produto das circunstâncias, alguém que aprende a matar para se defender – afinal, de uma forma de outra, ao ser perseguido e destituído de suas esperanças, ele já estava morto. E ele não aprende esses valores de uma hora para outra. Encontra na figura do índio Nobody (Ninguém) uma espécie de guru que o faz seguir seu caminho – que na verdade já está trilhado, inclusive pelo próprio indígena: “você já é um homem morto”. De almofadinha engomado, William Blake transforma-se em animal selvagem, sorrateiro e pronto para atacar – algo doutrora inimaginável. Se no começo os tiros de revólver saíam acidentalmente de suas mãos, agora ele faz da arma a sua tábua de salvação e não pensa duas vezes antes de aniquilar os obstáculos em seu caminho. O filme do diretor Jim Jarmusch é obrigatório: tem um visual impressionante e um roteiro que abala qualquer estrutura, que mescla ironia, humor negro e uma violência quase obrigatória do Oeste da América do Norte no Século XIX. Mais que isso, a evolução do personagem central da obra exibe uma realidade cruel a que um ser humano pode ser imposto. Como nos grandes épicos, as dificuldades proporcionam uma batalha interna de Blake, que evolui física e psicologicamente. Porém, o que mais emociona em Dead Man é o fato que, nem sempre há uma lição de moral ou mesmo um desfecho edificante para as batalhas contra as intempéries do destino. Muitas vezes esses combates se desenvolvem em vão, em situações em que o quadro já está definido: trata-se de um homem que já está morto.
O primeiro momento politicamente incorreto na vida de um indivíduo dá-se quando o mesmo já sabe distinguir o certo do errado e depara-se com a segunda opção. A exposição das novas gerações a produtos do entretenimento é responsável para que esse conceito seja inserido cada vez mais cedo nas pessoas. Interessante adicionar à afirmação anterior o fator temporal, ou seja, trata-se de um fenômeno acentuado nos últimos tempos. É muito comum ouvir de determinadas audiências que programas humorísticos, como o Casseta & Planeta, deixaram de ser engraçados. Ou então, os programas Zorra Total e A Praça é Nossa, em que jovens e adolescentes torcem o nariz diante dos esquetes com humor inocente. Essa natureza de comentário prova que houve uma mudança na natureza crítica das audiências contemporâneas. A polêmica nos desenhos animados Em 1989, surgia na tevê norte americana o seriado Os Simpsons, uma família bastante peculiar, que tem na figura do pai, Homer Simpson, um expoente contestador de todos os valores clássicos do mundo ocidental, que pode ser também relacionado com o American Way of Life (modelo de vida americano). Se até então os desenhos animados eram recheados de temas para criança, a produção de Matt Groening inseriu valores sociais, política e relações internacionais em um universo até então demarcado por personagens da Disney. Sucesso total. Na onda dos Simpsons outras duas produções de grande sucesso conseguiram superar a polêmica de seu inspirador: South Park (1997) e Uma Família da Pesada (1999). Em alguns casos a ousadia dos episódios é tão grande que tornam nula a rebeldia da família amarelada de Springfield. Jackass e o fim do bom senso A tradução literal de Jackass é “estúpido, tolo”. Em 2000 um grupo de jovens americanos deixou o planeta boquiaberto com peripécias que desafiavam os limites humanos. Tombos, torturas, fraturas e diversas cenas escatológicas mostraram o que o homem era capaz na indústria do entretenimento. O resultado foi a interrupção da série original dois anos após a estréia. A cicatriz da série Jackass mudou para sempre a maneira de ser ver/fazer humor na tevê. Já não bastava mais ser simpático, inteligente e espirituoso para arrancar risos – o bom programa tem de abalar as estruturas e, principalmente, chocar. O mundo vai assistir em Julho mais uma tentativa de extrapolar os limites dos padrões de ética no humor. O filme Brüno foi feito nos moldes dos realities shows por Sasha Baron Cohen, o mesmo criador de Borat. Dessa vez ele encarna um estilista homossexual bastante desafiador e suas cenas de humor utilizam até um bebê negro, que teria sido adotado na África. Basta aguardar e acompanhar mais uma produção que prova que, hoje em dia, o correto é ser completamente politicamente incorreto.
Uma pitada da nova coleção da grife Jack Jazz. Em breve making of no site www.jackjazz.com.br
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|  | novo curta Animal Borgers - Abril/2008 |
Como a mídia encara o trágico Introdução
O trabalho a seguir analisa dois fatos distintos, ocorridos em localidades completamente diferentes, separados entre si por um período de 15 anos. Tratam-se de duas ocorrências que têm como temática comum o homicídio e a juventude. O foco da análise, a maneira como os meios de comunicação se relacionaram e alguns resultados práticos da cobertura midiática dos eventos. A primeira abordagem foca o assassinato da atriz Daniela Perez, em 1992, crime que teve como peculiaridades o fato da jovem estar atuando em uma telenovela na época e, principalmente, o fato do autor do homicídio, também ator global, contracenar com a vítima. Em um segundo momento, o objeto de estudo é o homicídio em massa ocorrido em 2007 no Instituto Politécnico de Virginia, nos Estados Unidos, onde um jovem sul-coreano foi o autor dos disparos que mataram 32 pessoas, vindo a cometer o suicídio em seguida.
1. Linda, talentosa e morta
Na novela De Corpo e Alma (1992 a 1993), da Rede Globo, ela era a bela Iasmin, jovem linda e contagiante. Na vida real, era Daniela Perez, atriz em início de carreira, em seu primeiro trabalho de destaque, filha da novelista Gloria Perez. As telenovelas representam no Brasil uma grande fatia das receitas das grandes emissoras, como é o caso da Globo, renda gerada, principalmente, através da publicidade. Levando em consideração a enorme influência vinda das telenovelas no contexto da indústria cultural brasileira, a descrição da jovem e de seu papel não seria muito diferente dos diversos exemplos existentes na atualidade, não fosse o fato que, em 28 de dezembro de 1992, um homicídio fundiria pessoa e personagem. Naquela noite, ao término das gravações no estúdio Globo Tycoon, no Rio de Janeiro, Daniela aceitou uma carona com o ator Guilherme de Pádua, seu par romântico na trama, a viagem teve como destino um matagal, há seis quilômetros do local, onde o cadáver da jovem foi encontrado com diversas agressões, causadas por golpes de um “instrumento pérfuro-contundente”. Após 24 horas, a investigação policial encarcerava o ator Guilherme e sua esposa Paula Nogueira Thomaz. Terminava aí o curso do crime, começava a influência do fato na mídia e no público. Em seu livro Showrnalismo, o jornalista José Arbex Jr. descreve a fusão da atriz e da personagem:
Daniela e Iasmin se tornaram um só ser, nem humano nem fictício, algo existente numa espécie de fronteira tênue e difusa entre as duas coisas. Daniela emprestou seu corpo e sua aparência a Iasmin, Iasmin tirou Daniela do anonimato e lhe deu uma identidade, um enredo, uma trama na qual as pessoas se espelhavam e reconheciam. Não bastasse a proximidade do término entre trama e vida real, a própria produção da telenovela permitiu outras aproximações ainda mais gritantes. A autora de De Corpo e Alma era a mãe da vítima, Glória Perez, que escreveu um capítulo in memorian à garota. Nele, personagens emocionados olhavam para a câmera e se despediam da jovem. Arbex Jr. chega a batizar a vítima com um híbrido personagem/atriz, trata-se do assassinato de “Daniasmim”. A linguagem rápida e a facilidade de acesso à televisão e aos seus conteúdos fazem com que o veículo seja onipresente e sua mensagem, uma constante em praticamente todas as camadas sociais – vide a imensidão de variedades de antenas de tevê nas favelas e em presídios, por exemplo. O resultado é um grupo de valores fornecidos ininterruptamente a esse público, tornando-se uma espécie de segundo plano, pelo qual permeia a imaginação dos milhões de telespectadores. Uma metáfora bastante interessante com o tema vem da crônica de Woody Allen, entitulada O Caso Kugelmass. Nela, um professor da Universidade de Nova Iorque – Sidney Kugelmass - , entediado com o seu relacionamento na vida real e cansado do seu terapeuta, resolve arriscar uma solução através de um mágico que, através de um tratamento inovador, transporta seu paciente a um romance de sua escolha. Kugelmass não pensa duas vezes para buscar uma cura através do adultério com Madame Bovary. Nos momentos em que vive dentro do romance, sua vida flui perfeitamente até que sua presença no livro, passa a interferir a obra na vida real e seus alunos da NYU passam a notar a figura do professor no livro. A alegoria é sarcástica e fantasiosa, mas remonta a mistura a que está sujeita a vida real em determinadas aproximações da ficção. No caso Daniela Perez, a revista Veja assume o ódio do público perante a morte de Iasmin e passa a atacar o assassino, em uma cobertura repleta de acusações. A edição de 13 de janeiro de 1993 trazia a foto do casal responsável pelo homicídio, sob a manchete “O Pacto de Sangue – Guilherme: peças gays, histeria e sucesso a qualquer preço; Paula: ciúme doentio e contato com a noite barra-pesada”. O calor do acontecimento e o papel assumidamente parcial dos fatos pela revista Veja chega a gerar uma contradição nas coberturas. Na edição supracitada, o trabalho de investigação é exaltado, classificado como eficiente:
“Entre um momento e outro, a sorte fez uma parte d o bom senso fez a outra, depois que a tragédia estava consumada. Por sorte, havia naquela noite um delegado e dois detetives disponíveis para ir ao local na hora em que o crime foi registrado. Numa decisão correta, os policiais logo apreenderam uma lista de carros que tinham saído da Tycoon naquela noite. Numa conjunção das duas coisas, tiveram a preocupação de procurar outras testemunhas e a sorte de encontrar o advogado Hugo da Silveira, (...) Aí foi só conferir seus números com as placas relacionadas no controle da Tycoon para chegar a Guilherme de Pádua”. No entanto, a mesma Veja, na edição de agosto de 1996, passados os momentos iniciais do pós-crime, na ocasião do julgamento de Guilherme de Pádua e Paula Thomaz, faz duras críticas ao processo investigativo, a que julga inconclusivo em alguns pontos:
“Embora o assassinato de Daniela Perez tenha comovido o país, e sua mãe, a novelista Glória Perez, tenha feito um trabalho louvável para ajudar a polícia na coleta de provas para mandar para a prisão quem matou sua filha, a realidade é que nem de longe a investigação foi um serviço de primeira. Não se conseguiu resolver sequer uma questão banal e ao mesmo tempo crucial: qual foi a arma do crime? Tesoura ou punhal?”
A morte de Daniela não apenas provou o sucesso e as proporções que as telenovelas podem adquirir no subconsciente da audiência, mostrou também que a linha que separa realidade de ficção nos moldes atuais do entretenimento, é quase inexistente.
2. Rejeitado, deprimido e armado
O ano letivo de 2007 não será esquecido pelo Instituto Politécnico de Virgínia, em Blacksburg, nos Estados Unidos. As aulas do dia 16 de abril foram interrompidas por uma tragédia, o jovem Cho Seung-hui, estudante sul-coreano, abriu fogo contra alunos e professores, matando ao todo 32 pessoas e suicidando-se logo em seguida. Ao contrário da morte de Daniela Perez, em que as novidades do crime eram atualizadas apenas pelos plantões de rádio e os programas jornalísticos na televisão, em Virginia Tech, as notícias se amontoavam a cada segundo após a polícia ter sido chamada para intervir no local. As notícias partiam principalmente pela internet, em diversos sites, porém, o crime era transmitido ao vivo da mesma maneira, em vídeo pelas principais redes de tevê norte-americanas. À maneira do conceito de modernidade líquida, de Zygmunt Bauman, vivenciamos uma situação onde a tecnologia nos tornou presentes em acontecimentos “separados por fusos horários, climas e injunções geopolíticas”. As principais filmagens do ocorrido partiram de telefones celulares de estudantes, trêmulos perante o medo dos disparos das armas de fogo de Cho Seung-hui. E os blogs (weblogs), jornalísticos ou não, passaram a alimentar freneticamente o ambiente virtual com novos fatos e observações sobre o mais novo massacre norte-americano. Dessa rapidez no fornecimento de informações, surgiram também os equívocos: o blog noticioso do jornal The Washington Post publicou na tarde do crime que, no quarto do jovem atirador, havia sido encontrada uma cópia do jogo de computador Counter Strike, um título violento, que usa armas de fogo. Um blog especializado em games (o Joystiq) foi além e, ao ouvir colegas do estudante, concluíram que o jovem sequer era adepto de videogames. Misteriosamente, o texto do blog do jornal foi deletado após a observação da imprensa especializada. As coberturas que sucederam a data da tragédia mostraram o autor dos disparos como um jovem que sofria constante exclusão e estaria deprimido. O crime se mostrou como uma válvula de escape para o rancor do jovem, que premeditou cada passo do que seria uma das maiores tragédias estudantis da história dos EUA. Para provar a afirmação acima, foi necessária apenas a tecnologia digital. O próprio Cho Seung-hui produziu, utilizando recursos tecnológicos caseiros, um vídeo, chamado pela imprensa de “manifesto multimídia”, que foi enviado à sede da NBC, um dos maiores grupos de comunicação do planeta, para divulgação dos reais motivos da tragédia. A indústria cultural também é referenciada no vídeo de Cho: as fotos contidas no DVD simulam cenas do filme “Old Boy” (2003), uma produção sul-coreana de enorme sucesso no mundo ocidental, cujo tema central é vingança.
Conclusão
Ambas as tragédias causaram comoção e receberam da mídia em geral cobertura ampla e intensa – a primeira em âmbito nacional e a segunda mundial. As principais diferenças no enfoque são ligadas diretamente aos recursos tecnológicos em comunicação. Em 1992, a notícia foi extremamente difundida, porém, sem os impacto e rapidez dos blogs e sites da ocorrência de 2007. No entanto, foram exemplificadas duas situações em que a mídia assume o papel do “príncipe eletrônico”, conduzindo a informação a partir da respectiva linha editorial do veículo – a revista Veja e o jornal The Washington Post. São exemplos distantes 15 anos um do outro, mas que coloca como inseparáveis o papel da mídia e do poder.
Bibliografia utilizada Bibliografia básica do curso de Mída e Poder. -
ALLEN, Woody . Que Loucura!, Porto Alegre: L&PM 1983 -
ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa. Amarela, 2001. -
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. -
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